Lamento



Não passa de mais uma daquelas noites, de pleno sofrimento! Na minha mente oiço todas aquelas vozes, que me destroem ... que me matam. Não oiço mais nada para além, daquelas frases frias, desumanas e duras. "Não prestas!", "És um falhado", "És uma humilhação", "És uma aberração", "És horrível" ...  é deste género de frases que proclamam, em forma de bala, contra mim! Porém, para além disso ainda vejo aqueles olhares de desprezo, que penetram na minha alma como lâminas finas, rasgando-a em pedaços! Sinto-me humilhado, um trapo... sinto-me como um papel amarrotado e sujo, que fora lançado ao lixo. Basicamente não passo de um triste e pobre falhado! Sinceramente não sei porque ainda vivo, não sei porque ainda respiro, não sei porque ainda insisto em ouvir estes comentários! Não tenho alma, não tenho auto-confiança, nem auto-estima, não controlo a minha mente... Pois ela não pára de implorar o último minuto, não quer mais nada que senão a morte! (suspirando) Ai, que aperto, de tão grande dimensão, no meu peito. É quase como se todos os meus orgãos estivessem a encolher, propositadamente, para me sufocar! NÃO AGUENTO MAIS ESTE SUFOCO! CHEGA! CHEGA DE VIVER! CHEGA DE DOR!
Tenho de por um fim, a este ciclo vicioso! O dia é hoje, a despedida é aqui! As vozes irão se calar dentro de momentos!
Bom, chegou a hora da despedida! Peço perdão, por ter nascido assim, por ter causado tanto distúrbio e transtorno! Peço perdão por tudo o que fiz de certo e de errado! Peço perdão, por ter existido nas vossas vidas! Peço perdão por tudo! Sejam verdadeiramente felizes, agora. Visto que deixaram de desperdiçar o vosso tempo, com uma reles pessoa, como eu. Até sempre! P.S.: Não façam o que me fizeram a mim, a mais ninguém, por favor!
Ai que dor tão pontiaguda no coração! Estou tão feliz, vejo a morte a aproximar-se, sinto o sossego a voltar, começo a descansar na paz, que outrora nunca tivera! Os comprimidos, que tomara antes de começar este texto, já começam a fazer efeito e a dominar o meu corpo, o batimento do meu coração, a minha respiração! Estes pequenos comprimidos deram-me a felicidade suprema, deram-me o fim que tanto desejava! Bem, está na altura da despedida, os comprimidos não devem demorar muito a acabar comigo!
Até sempre! Sejam felizes :)

Feridas por curar, são portas abertas para a morte!

Tempestade

Ai a saudade, está a matar-me! Este sufoco, vai me matar, vai acabar comigo até ao meu último segundo! Já não suporto mais estes nós nas minhas veias. Escrevo isto, ao mesmo tempo que contemplo a lua. Não sei explicar, mas aquele foco brilhante, no meio do pano de fundo escuro e negro, fascina-me! Porém fascina-me, pela negativa! Traz-me memórias intocáveis... Memórias essas, que me fazem proclamar à lua, palavras de dor, sofrimento e angústia. Não sei porque! Mas vivo com o coração apertado, desde aquele dia. Aquele dia, que me roubou o misero pedaço de alma, que me restava! Recordo-me perfeitamente de tudo!
Lembro-me que tínhamos ditado passar um serão romântico. Então havia velas, flores e bilhetes por todo o lado. O chão estava coberto de pequenas alcatifas felpudas, as quais eu pisava, e fazia-me sentir nas nuvens. Tu estavas bem ao meu lado, agarrado a mim. Apertavas a minha mão com uma força tão grande, como quem não me quisesse largar, por nada deste mundo! Senti-me a pessoa mais amada, e naquele conforto recordei todos os nossos pequenos e grandes momentos! Tu conduziste-me para a sala, e mais propriamente para o sofá! Deitaste a cabeça no meu peito e agarraste na minha mão. Passamos um bom bocado do tempo assim... no silêncio, naquela troca de olhares. Até que faltava cumprir parte do teu plano... ir para a rua! Então, fomos passear. A noite estava amena, a lua brilhava intensamente lá no alto, as ruas estavam quase vazias... era só nosso, aquele lugar! Havia um lago, perto de nossa casa e foi esse o nosso destino. O lago naquela noite estava perfeito. A lua refletida na água, o silêncio noturno, ouviam-se os sons do animais, que à noite despertam. E nós naquele lugar, sentimos o amor a florescer. Sendo assim, deitamo-nos no vasto manto verde, que cobria todo o parque. E novamente, tu deitaste a cabeça no meu peito, e agarraste na minha mão. Mas com mais força ainda. Por momentos, pensei que se estava a passar algo de controverso contigo, mas ignorei os pensamentos e liguei-me às emoções! Porém aquele gesto, aquele simples movimento, mudou toda a história, mudou toda a minha vida! O momento em que olhas para o relógio e me dizes "Falta apenas 1 minuto!"... Não percebi o porquê daquela frase, pois tu estavas sorridente, e aparentemente feliz. E desde que tu me disseste essa pequena frase, que tu não descolaste o teu brilhante olhar do relógio. Aí percebi que era tudo uma questão de tempo, mas não sabia para que finalidade... Até que olhei para o apontador de horas, e vi que faltava poucos segundos. Estava empolgado, mas ao mesmo tempo duvidoso. Foi nesse curto espaço de tempo que começou a chover torrencialmente, e tu me disseste: "Adeus". Não percebi, até ao momento em que morreste nos meus braços, em que deixei de te sentir, em que a tua respiração parou por completo... A tua mão escorregou pela minha, e assim te perdi em segundos, naquela chuva torrencial! Perdi aquele olhar, aquele toque, aquela voz suava ... perdi a tua alma! E ainda hoje sinto a tristeza profunda. Estou simplesmente aterrorizado e amaldiçoado... Está difícil viver sem ti! E as noites de sossego, são as noites de chuva... onde cada gota que cai na janela, me faz sentir mais perto de ti! Não sei até quando vivo, mas ainda te sinto!
 É tudo uma questão de tempo, até que a sentença de morte se cumpra!

Orgulho

 Acordei com o sol a radiar na minha face. Despertei com a luz amarela e brilhante, que aqueceu todo o meu corpo, que o contaminou de alegria pura! Por momentos, o meu cérebro esqueceu tudo e deixou maravilhar-se por aquela luz hipnotizante. E, naquele transe, me apaixonei pelo céu! Mas num ápice, aquele foco brilhante que me iluminava... abandonou-me! Perdi-o, no entreabrir dos olhos. Em segundos, dei por mim caído por terra, em lágrimas, em desespero e na angústia da solidão. Foi naquele abrir e fechar de olhos, como o bater das asas de um anjo, que revivi todas as minhas memórias passadas... desejei e obriguei-me a nunca mais me lembrar delas!
Porquê teve de ser assim tão cruel? Sofrer é diário. Porém em criança, custou-me tanto. Custou ser objeto, custou ter que aprender a controlar os meus sentimentos, custou esconder as mágoas e as minhas carências! Porquê a mim? Sentia-me e sinto-me deslocado, diferente, desigual, desrespeitado, inferior e desnecessário! Os meus colegas andavam sempre aprumados, bem arranjadinhos, alguns pareciam pinturas. Nos intervalos lá iam eles com a sua mala, para satisfazerem-se com o seu lanche. Notava-se a grande satisfação nos rostos deles. E eu?! Eu era a criança com o cabelo despenteado, trajes velhos e rotos, rosto pálido, olhos encovados e escuros, não tinha a minha malinha com o lanche. Cheguei, inclusive, em ir para a escola sem qualquer tipo de alimento no meu estômago, completamente em jejum. Injusto não é? Mas a vida não é feita de justiças e injustiças, a vida é um caminho pela qual nós fazemos opções, após a tomada de uma decisão temos que carregar as consequências! Sofri por consequência dos outros, mas vivi e vivo com isso!
  Mas porque tinha de ser objeto de represálias e de chacota? Já não bastava a repugnância que tinha para comigo? Porém, a verdade é que é muito mais fácil humilharmos quem é diferente, quem tem anomalias, quem não tem posses monetárias, do que criticar alguém do nosso estatuto! Mas isto é passado! Um passado vivido de carências, um passado relembrado por sentenças de causa presente.
 Orgulho?! Tenho muito orgulho... mas um orgulho podre! Além da miséria passada, o presente arrecadou semelhantes profecias, e fez de mim um Homem de rua. Aquele Homem à qual rejeitas ajudar, à qual me fazes ainda mais sórdido. Só porque a minha casa é um jardim obscuro, com uns bancos debilitados! Dava-me à magnificência de ter um pequeno lar acolhedor e quente. Mas a única fonte acolhedora e quente que possuo é aquela luz, que brilha nas raras manhãs de céu harmonioso! Nos restantes dias é andar escoltado pela brisa gélida que a corrente traz!
 O podre orgulho cai por terra e mata o Homem de repugnância!

Nada

Espreitei pela janela, e reparei no dia belo que está! O sol radia, os pássaros cantam, as folhas dançam na leve brisa quente. E eu ... aqui deitado como um defunto. Os meus olhos ardem, os meus ossos rangem, e o meu pensamento voa nas profundas e dolorosas feridas. Não sei o que se passa comigo! A minha mente está ... morta! Já não tenho a vivacidade, a esperança, a felicidade ... que tinha anteriormente. A cada dia que passa, é um pedaço de mim que desvanece. A cada tic-tac do relógio, é uma lágrima e um sufoco que em mim se executa. E até isto se está a tornar numa rotina!
 O meu coração manda-me desaparecer. Ele manda-me dormir, não umas horas... mas eternamente! Está a matar-me! Desde há alguns dias que sinto necessidade de ser esquecido, sinto a necessidade de morrer para as pessoas. Se pudesse apagava cada memória, que existe em cada pessoa mais próxima. Se pudesse destruía, tudo o que construi até agora. Se pudesse não teria nascido. Se simplesmente pudesse...
Ai! Quero ser esquecido, tal como são os defuntos. Quero tornar-me numa pessoa que não tenha memórias. Quero ser o nada. E assim e só assim é que terei a minha paz, mesmo que seja após a morte... mas é a paz que busco!

Carta

Estava um dia a passear pela praia, a praia era linda, muito limpa, areia muita clara, assim como, a água... Era uma praia extraordinária, e por estranho que pareça encontrei no chão, uma simples garrafa de vidro. Fiquei espantado com o que vi, pois era o primeiro vestígio de lixo que encontrara! Então decidi pegar nela e leva-la para um caixote do lixo mais próximo! Quando peguei nela reparei, que não estava vazia, que tinha um bilhete lá dentro. Abri a garrafa e lá tinha a seguinte mensagem:
"Psst ...
Neste momento estás a ler esta carta com mágoa, tristeza e dor. O destino estava marcado! Agora para vós tudo parece estranho e confuso, mas não vos pareceu estranho e muito menos confuso quando me puseram de parte, quando me excluiram, quando me disseram não nos momentos que mais precisava de vocês...
Porque pensas agora? Porque te sentes arrependido?
Porque foi necessário esperar que o fim mostrasse o teu arrependimento?
Porque queres voltar atrás no tempo? E voltar atrás para quê?
Para mostrares o que sentias?
Para não me deixares sofrer naquele canto escuro, frio, sem alma?
Porque choras? Faço-te falta, nunca o mostraste, porquê?

Era inútil, não tinha valor, não era humano, vendi a minha alma ao mais reles diabo e deixei, apenas, um corpo a divagar neste mar de pessoas cabinais, que só me faziam sofrer e que só o meu corpo queriam devorar ...
Vós, tu, que choras pelo meu corpo sem vida, sem funcionalidade... as lágrimas não me traram vida, não me traram conforto, alegria, amor ...
Não te sintas culpado deste acontecimento, porque agora concretizo as minhas palavras, agora serei o teu anjo da guarda, destruirei os teus medos, combaterei os teus inimigos, far-te-ei feliz. Sei que sou invisivel e por esse mesmo motivo irei acompanhar todos os teus passos, te irei levantar em todas as tuas quedas...
Sei que vou acabar por cair no esquecimento, na escuridão do teu pensamento, e que enterrarás este facto e viverás a tua vida normalmente como se isto não passe nada mais do que um suspiro de animo leve.
Acredita, agora sou feliz e livre
Desculpa mas foi a solução que encontrei de me libertar de todos os problemas...
Vive o que te resta.

Com muito amor e carinho, a tua lágrima..."
Fiquei com bastante medo, fiquei apavorado! Será que esta carta fora escrita e cumprida? Ou será que esta carta teria sido escrita apenas para encerrar um ciclo, sem por um fim na vida? Cartas ao vento, vivem eternamente

Ruídos

 Tão feliz que era! Vivia de sonhos futuros, encantava-me com a beleza do mundo, maravilhava-me com o ser humano. Era uma criança feliz, que contaminava as pessoas com alegria. Adorava o toque mágico que levava às pessoas. Era como se fosse um contágio! Ai, sentimento nostálgico estúpido! Só me trazes uma saudade infernal. A saudade de ser feliz, com algo simples!  Por vezes odeio ter crescido. Mas o certo é que somos "obrigados" a isso!  O mundo é tão diferente daquele que era em criança. O ser humano já não é aquilo que me maravilhava. Os meus sonhos de criança, foram-se!
 No mundo de hoje, à tanta rivalidade, tanto racismo, tanto preconceito, tantas leis! Que até as pessoas ditas felizes, não compreendem como isto é possível. Sendo nós uma só espécie, a espécie humana, como podemos estar tão divididos, como podemos estar tão catalogados! Atualmente, as pessoas matam indiretamente, as pessoas cometem homicídios diariamente. Não com armas, nem golpes! Mas com barreiras construídas, com frases explodidas de bocas sujas, e com gestos brutos que despertam e fazem com que desapareça um pedaço de uma pessoa. Aos poucos se rouba uma alma, até a conduzir à sua morte interior. Pois eles, aproveitam-se dos frágeis e abusam desse ponto fraco. Porquê tanto preconceito? Porquê tanto racismo? Porquê tanto individualismo? Porquê tantas leis impensadas? Porquê ?!
O mundo e as mentalidades devem evoluir, devem libertar-se de mistérios, abrir mãos a todos! Pois somos todos humanos, pois todos temos amor, carinho e conforto para dar. Deixem-se de restrições para integrar-se numa sociedade, deixem-se de criticar o próximo e de lhe apontar os defeitos... deixem-se! Não continuem a "roubar" as pessoas e deixem as pessoas viver a sua vida. Viver a sua vida, à sua maneira, com os seus hábitos, com o companheiro que amar, com o rumo que quiser! Não moldem ninguém ao vosso gosto, não tratem as pessoas, que são iguais a vocês, como um brinquedo, como um escravo vosso! Porém, se os ruídos mortais prevalecerem, mais almas silenciadas haverão! Amem-se e respeitem-se, somos todos humanos!

Entregue

 É mais um dia cinzento e chuvoso! Está tudo encharcado, ouve-se o desespero de quem está a submergir! Não gosto nada de estar assim, odeio me sentir assim! Tenho um vazio enorme dentro de mim, como se me tivessem roubado algo, um pedaço de mim. Continuo a submergir no desespero! Não sei porquê, mas estou a escurecer cada vez mais. A minha alma está a ficar negra, assim como o meu coração! Mas há algo que me impede de me tornar, totalmente, num ser negro... E esse algo és tu! E porquê tu? Porque eu não te quero ver magoado, preocupado, desesperado pela minha cura... nao quero nada disso para ti! Eu quero-te o mais feliz possível, quero-te sadio.
 Tu és o meu mundo, a minha luz na escuridão... és tudo para mim! E só te peço uma coisa, uma coisa muito importante! Quando te sentires fraco, a perder a tua luz, a tua alma ... quando te quiseres magoar, não o faças em ti. Usa o meu corpo como cobaia tua, corta-o se for preciso. Mas não te magoes a ti! Desde que estejas saudável, isso já é a minha felicidade eterna! Por favor cumpre este meu último pedido. Por favor! Faz-me feliz, faz-me eternamente feliz.

Sorrir

Tentei largar-me do vício de escrever, contudo não consegui! Preciso de me expressar, preciso de expulsar a minha dor interior... Seria tudo muito mais fácil se não doesse, se não criticassem, se não abusassem de mim, se não insultassem! Seria muito mais fácil! Porém sorrio todos os dias. Um sorriso mascarado, forçado, magoado e sem alma. Quantas vezes já não sorri, com vontade de chorar? Quantas vezes já sorri, só para não dar parte fraca? Quantas vezes não sorri, para dar a entender que não me magoou? Quantas vezes? ...
 Estou farto daqueles, que se consideram superiores, e tentam rebaixar-me. Farto, desta sociedade empilhada de regras e limites. Empilhada de pessoas de mau carácter e autoritáritas, que pensam que só elas estão corretas! Farto, destes otários, que se julgam! E é por causa deles, que estou a apodrecer. Estou a morrer aos poucos, pedaços de mim arrancados, tortura sem fim, punição só porque eu não fiz o que para eles estava correto! ESTOU FARTO!
 Começo a ficar sem energias para continuar a lutar, para continuar a forçar o sorriso! Não tenho forças para mais... e também não quero que me ajudem! Eu consigo sair disto, se não sair e morrer... pronto morri! Mas não quero ninguém para me "ajudar", ninguém mesmo!
 CONTUDO ESTOU BEM E CONTINUO A SORRIR!

Poção

 Mais um dia. E cada vez mais estou incurável, cada vez mais morto! A minha alma está a despedaçar-se aos poucos. Já nem me reconhecem, já ... nem me reconheço! Sinto-me como se fosse um pobre, não um pobre no sentido de carência económica! Mas um pobre de alma, uma alma penada!
 Dependo muito desta poção. Dependo dela para afogar todas as mágoas, para ocultar a dor, para viver feliz. Ai! Quando me alimento dela... fico alegre, pelos vistos é contagiante, pois vejo os sorrisos que faço esboçar no rosto negro das outras pessoas. Pensando bem, não se devem rir da minha alegria interior. Mas sim da minha alegria envenenada, das minhas figuras tristes, dos meus atos podres...
 Triste que sou, agora tenho um vazio dentro de mim, sinto-me uma marioneta ridicularizada, mas ... a poção tem tanto poder sobre mim! Preciso dela tanto como preciso de dinheiro para a consumir, como preciso do ar que respiro! Ela é a MINHA vida... É ridículo, eu sei! Porém é ela que ainda me mantém aqui na terra, e só ela me irá matar! Pobre feliz! Triste coitado! Esta é a minha vida, vivendo da poção da triste felicidade.

Consciente

Já é tão tarde! O corpo pesa, o cérebro implora descanso  os olhos ardem... as minhas forças desapareceram. Estou completamente exausto! Exausto não só de todo o meu dia, não só do trabalho... exausto também de refletir, de tentar perceber! Tento sair deste poço sem fundo, mas não consigo. Escorrego pelas paredes húmidas e frias, rasgo a minha pele, faço feridas de grande profundidade! O que outrora era límpido, agora é um aconchego para as minhas gotas de sangue, que pelo meu corpo transbordam. Sei que vou morrer aqui! Sei que vou morrer desta dor! Porém, o meu (in)consciente obriga-me a continuar... a matar-me, em vez de ser morto. Não consigo parar! Sinto cada pedaço de pele a rasgar. Sinto cada veia a ser fulminada. Sinto cada gota de sangue a jorrar por cada rasgo. Sinto o calor do sangue jorrado. Faço isto face a face com o espelho. E agora... adoro o meu corpo! Pareço um jornal... tão lindo. Está todo escrito, cheio de palavras perdidas, que vocês tanto gostavam de me chamar e de me dizer. Está simplesmente perfeito o meu corpo! Nunca o amei tanto! Nunca! Mesmo ao estar com dores tremendas e com tonturas, eu sinto-me perfeito! Engraçado, que vou morrer perfeito!
 Mas antes tenho que me ocupar das minhas últimas forças para limpar as poças de sangue, que estão espalhadas pelo chão. Forças para lavar o meu corpo e passar as pontas suaves dos meus dedos sobre cada detalhe de cada ferida. Já volto! (...) Tarefas concluídas! Ai! Sinto a brisa fria, da corrente de ar a resfriar cada ferida. Sinto as enormes tonturas, já desmaiei inclusive! São tantas as dores... Não consigo controlar este sofrimento. Procuro algo que sustente o meu corpo! Algo que suporte este trapo de corpo perfeito! Um cinto ou uma corda seria perfeito. Tenho por coincidência uma corda aqui perto, por isso vou ajustá-la à minha altura e vou afixá-la. Vou pegar num banco e vou apertá-la em torno de meu pescoço. Até me fica bem! E ... aiiiiiiii! (último suspiro) "Guardai a minha alma"
 Assim fui condenado à morte, pelo meu próprio sufoco.


Sorte

 E é mais um dia que estou aprisionado. Já não bastava este facto, como incidiu em mim a nostalgia. Nostalgia das minhas brincadeiras, corridas, birras, choradeiras, etc. Ai, como sinto saudade! Saudade daquelas histórias inocentes, sem princípio, meio e fim ... sem jeito nenhum. Saudade dos tempos em que brincava a saltar à corda, juntos dos meus amigos. Saudade de estar descalço e sentir o chão, ou de estar na praia e sentir a suavidade da areia. Saudade de quando corria e pensava que tinha super velocidade e conseguia rasgar o vento... Uma saudade tremenda, que não passa de memórias que para sempre guardarei. Pois é isso que me mantém vivo. É isso que me faz manter a minha respiração, já compassada. Mas, por vezes, despendo de tanta força vital para reviver estas memórias, que quase não consigo suspender a última lufada de ar inspirada.
 Começo a ficar desgastado desta prisão! Começo a desejar a minha última inspiração! Não desejo mais estas duas rodas que me movem! Odeio esta cadeira! Quero poder voltar a suportar-me nas minhas pernas! ... Raios, lembrei-me novamente daquele dia que me prendeu. Daquele dia que praticamente acabou comigo. Quis tanto esquecer... mas fui escravizado a lembrar-me todos os dias, pois ela está sempre presente. Afinal é ela que me leva! Ai, lembro-me perfeitamente do dia em que fui atropelado violentamente. E preciso imenso de o contar. Minha alma vivia muito feliz, numa alegria contagiante. Por onde passava contaminava os sonhos e as brincadeiras, com uma alegria enorme, a qual provoca um belo e grande esboço de um sorriso nas pessoas que me rodiavam. Sempre que isto acontecia, minha alma ficava cada vez mais cristalina, mais pura, mais transparente... Então ía um dia, minha alma, a passear serenamente entre brincadeiras e gargalhadas. Até quando avista os sonhos, e choca contra eles. Nesse preciso momento, meu corpo, resfriou e sentiu um vazio enorme. Tinha perdido a alegria que contaminava as pessoas. Pois minha alma tinha sido atropelada pelos sonhos... os sonhos destruiram-se e minha alma perdera as pernas que moviam a sua (minha) vida. Pobre alma, pelos sonhos fora roubada! Pobre alma, que perdeste a tua alegria! Pobre alma!
 E é assim que vivo. Vivo do suporte da memória, são elas que ainda me movem e me mantém vivo! Sou uma pessoa que não tem a força para lutar pelos seus sonhos, uma vez que estão igualmente destruídos! Uma pessoa sem projetos de futuro. Sem motivo aparente para respirar e continuar a viver! Contudo estou morto, porém vivo nas memórias.

Dificílimo!

Acordei novamente... Pobre de mim, ter acordado para mais um dia! Preferia um descanso eterno, algo mais duradouro! Ai, como odeio amar-te tanto, vida. Odeio tanto que começo a ficar louco e ferido deste amor, à qual julgo que deve ser eterno. Estou consumido desta droga que já me corroí. A ferida, que cada vez mais rasga, faz com que seja tão difícil acordar, e remontar o passado com o presente! É tão difícil conjugar os dois, mas tão difícil, que às vezes preferia nunca mais abrir os olhos. Não consigo perceber. Juro que tento, mas não consigo! Mudei, mas mesmo assim é difícil perceber. No passado rejeitado, no presente amado. No passado destruído, no presente exaltado. No passado ignorado, no presente admirado. No passado tudo tão diferente, que me impossibilita de acreditar no presente!
Não consigo aceitar os elogios, estou desprovido disso! É tão difícil ver qualidades, num mar de defeitos... e eu começo a afundar-me, e cada vez vejo menos luz! Adeus! Submeti-me ao mar, foi mais forte que eu, não resisti...desculpa, nunca pensei poder ceder tão facilmente. Mas estava tão desprotegido, que qualquer arma, me feria... que qualquer arma, me matava! Meu coração era frágil e negro sentia-se ameaçado. Ele estava completamente rasgado de tanta arma, que cessava fogo contra ele! Mas sempre se reconstituía, mas a cada pedaço remontado... era um pedaço que da minha alma roubado e consumido para construir, meu pobre coração! Porquê tanta bala de insulto? Porquê tanta bala com defeito?
E porque me tentavam curar com elogios? Quem estará correto? Quem cessa fogo contra mim, ou quem me cura? ... Não obtive resposta, por isso deixei-me conquistar pelas ondas... Agora afundado, sinto o toque suave, de quem me quer curar, das algas; sinto a corrente leve criada pelos peixes, que por mim rodopiam, e me fazem sentir protegido; oiço os assobios dos golfinhos, como quem me quer despertar e me aconselhar, aquece-me tanto o coração; oiço também um canto profundo, não sei se serão das sereias ou até mesmo de todos os mamíferos. Mas oiço um canto tão belo, que me embala e traz-me o conforto; Vejo, sinto, oiço ... tão maravilhosa a sensação de conforto, de carinho, ... ! Finalmente sinto a proteção, daqueles que vêm para além dos meus defeitos...
Afinal não me afoguei neste mar, mas sim encontrei o descanso, o amor, o carinho, o afeto de todos aqueles que penso que me amam! Continuo a respirar, continuo vivo ...