Já é tão tarde! O corpo pesa, o cérebro implora descanso os olhos ardem... as minhas forças desapareceram. Estou completamente exausto! Exausto não só de todo o meu dia, não só do trabalho... exausto também de refletir, de tentar perceber! Tento sair deste poço sem fundo, mas não consigo. Escorrego pelas paredes húmidas e frias, rasgo a minha pele, faço feridas de grande profundidade! O que outrora era límpido, agora é um aconchego para as minhas gotas de sangue, que pelo meu corpo transbordam. Sei que vou morrer aqui! Sei que vou morrer desta dor! Porém, o meu (in)consciente obriga-me a continuar... a matar-me, em vez de ser morto. Não consigo parar! Sinto cada pedaço de pele a rasgar. Sinto cada veia a ser fulminada. Sinto cada gota de sangue a jorrar por cada rasgo. Sinto o calor do sangue jorrado. Faço isto face a face com o espelho. E agora... adoro o meu corpo! Pareço um jornal... tão lindo. Está todo escrito, cheio de palavras perdidas, que vocês tanto gostavam de me chamar e de me dizer. Está simplesmente perfeito o meu corpo! Nunca o amei tanto! Nunca! Mesmo ao estar com dores tremendas e com tonturas, eu sinto-me perfeito! Engraçado, que vou morrer perfeito!
Mas antes tenho que me ocupar das minhas últimas forças para limpar as poças de sangue, que estão espalhadas pelo chão. Forças para lavar o meu corpo e passar as pontas suaves dos meus dedos sobre cada detalhe de cada ferida. Já volto! (...) Tarefas concluídas! Ai! Sinto a brisa fria, da corrente de ar a resfriar cada ferida. Sinto as enormes tonturas, já desmaiei inclusive! São tantas as dores... Não consigo controlar este sofrimento. Procuro algo que sustente o meu corpo! Algo que suporte este trapo de corpo perfeito! Um cinto ou uma corda seria perfeito. Tenho por coincidência uma corda aqui perto, por isso vou ajustá-la à minha altura e vou afixá-la. Vou pegar num banco e vou apertá-la em torno de meu pescoço. Até me fica bem! E ... aiiiiiiii! (último suspiro) "Guardai a minha alma"
Assim fui condenado à morte, pelo meu próprio sufoco.

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