Sorte

 E é mais um dia que estou aprisionado. Já não bastava este facto, como incidiu em mim a nostalgia. Nostalgia das minhas brincadeiras, corridas, birras, choradeiras, etc. Ai, como sinto saudade! Saudade daquelas histórias inocentes, sem princípio, meio e fim ... sem jeito nenhum. Saudade dos tempos em que brincava a saltar à corda, juntos dos meus amigos. Saudade de estar descalço e sentir o chão, ou de estar na praia e sentir a suavidade da areia. Saudade de quando corria e pensava que tinha super velocidade e conseguia rasgar o vento... Uma saudade tremenda, que não passa de memórias que para sempre guardarei. Pois é isso que me mantém vivo. É isso que me faz manter a minha respiração, já compassada. Mas, por vezes, despendo de tanta força vital para reviver estas memórias, que quase não consigo suspender a última lufada de ar inspirada.
 Começo a ficar desgastado desta prisão! Começo a desejar a minha última inspiração! Não desejo mais estas duas rodas que me movem! Odeio esta cadeira! Quero poder voltar a suportar-me nas minhas pernas! ... Raios, lembrei-me novamente daquele dia que me prendeu. Daquele dia que praticamente acabou comigo. Quis tanto esquecer... mas fui escravizado a lembrar-me todos os dias, pois ela está sempre presente. Afinal é ela que me leva! Ai, lembro-me perfeitamente do dia em que fui atropelado violentamente. E preciso imenso de o contar. Minha alma vivia muito feliz, numa alegria contagiante. Por onde passava contaminava os sonhos e as brincadeiras, com uma alegria enorme, a qual provoca um belo e grande esboço de um sorriso nas pessoas que me rodiavam. Sempre que isto acontecia, minha alma ficava cada vez mais cristalina, mais pura, mais transparente... Então ía um dia, minha alma, a passear serenamente entre brincadeiras e gargalhadas. Até quando avista os sonhos, e choca contra eles. Nesse preciso momento, meu corpo, resfriou e sentiu um vazio enorme. Tinha perdido a alegria que contaminava as pessoas. Pois minha alma tinha sido atropelada pelos sonhos... os sonhos destruiram-se e minha alma perdera as pernas que moviam a sua (minha) vida. Pobre alma, pelos sonhos fora roubada! Pobre alma, que perdeste a tua alegria! Pobre alma!
 E é assim que vivo. Vivo do suporte da memória, são elas que ainda me movem e me mantém vivo! Sou uma pessoa que não tem a força para lutar pelos seus sonhos, uma vez que estão igualmente destruídos! Uma pessoa sem projetos de futuro. Sem motivo aparente para respirar e continuar a viver! Contudo estou morto, porém vivo nas memórias.

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