Carta

Estava um dia a passear pela praia, a praia era linda, muito limpa, areia muita clara, assim como, a água... Era uma praia extraordinária, e por estranho que pareça encontrei no chão, uma simples garrafa de vidro. Fiquei espantado com o que vi, pois era o primeiro vestígio de lixo que encontrara! Então decidi pegar nela e leva-la para um caixote do lixo mais próximo! Quando peguei nela reparei, que não estava vazia, que tinha um bilhete lá dentro. Abri a garrafa e lá tinha a seguinte mensagem:
"Psst ...
Neste momento estás a ler esta carta com mágoa, tristeza e dor. O destino estava marcado! Agora para vós tudo parece estranho e confuso, mas não vos pareceu estranho e muito menos confuso quando me puseram de parte, quando me excluiram, quando me disseram não nos momentos que mais precisava de vocês...
Porque pensas agora? Porque te sentes arrependido?
Porque foi necessário esperar que o fim mostrasse o teu arrependimento?
Porque queres voltar atrás no tempo? E voltar atrás para quê?
Para mostrares o que sentias?
Para não me deixares sofrer naquele canto escuro, frio, sem alma?
Porque choras? Faço-te falta, nunca o mostraste, porquê?

Era inútil, não tinha valor, não era humano, vendi a minha alma ao mais reles diabo e deixei, apenas, um corpo a divagar neste mar de pessoas cabinais, que só me faziam sofrer e que só o meu corpo queriam devorar ...
Vós, tu, que choras pelo meu corpo sem vida, sem funcionalidade... as lágrimas não me traram vida, não me traram conforto, alegria, amor ...
Não te sintas culpado deste acontecimento, porque agora concretizo as minhas palavras, agora serei o teu anjo da guarda, destruirei os teus medos, combaterei os teus inimigos, far-te-ei feliz. Sei que sou invisivel e por esse mesmo motivo irei acompanhar todos os teus passos, te irei levantar em todas as tuas quedas...
Sei que vou acabar por cair no esquecimento, na escuridão do teu pensamento, e que enterrarás este facto e viverás a tua vida normalmente como se isto não passe nada mais do que um suspiro de animo leve.
Acredita, agora sou feliz e livre
Desculpa mas foi a solução que encontrei de me libertar de todos os problemas...
Vive o que te resta.

Com muito amor e carinho, a tua lágrima..."
Fiquei com bastante medo, fiquei apavorado! Será que esta carta fora escrita e cumprida? Ou será que esta carta teria sido escrita apenas para encerrar um ciclo, sem por um fim na vida? Cartas ao vento, vivem eternamente

Ruídos

 Tão feliz que era! Vivia de sonhos futuros, encantava-me com a beleza do mundo, maravilhava-me com o ser humano. Era uma criança feliz, que contaminava as pessoas com alegria. Adorava o toque mágico que levava às pessoas. Era como se fosse um contágio! Ai, sentimento nostálgico estúpido! Só me trazes uma saudade infernal. A saudade de ser feliz, com algo simples!  Por vezes odeio ter crescido. Mas o certo é que somos "obrigados" a isso!  O mundo é tão diferente daquele que era em criança. O ser humano já não é aquilo que me maravilhava. Os meus sonhos de criança, foram-se!
 No mundo de hoje, à tanta rivalidade, tanto racismo, tanto preconceito, tantas leis! Que até as pessoas ditas felizes, não compreendem como isto é possível. Sendo nós uma só espécie, a espécie humana, como podemos estar tão divididos, como podemos estar tão catalogados! Atualmente, as pessoas matam indiretamente, as pessoas cometem homicídios diariamente. Não com armas, nem golpes! Mas com barreiras construídas, com frases explodidas de bocas sujas, e com gestos brutos que despertam e fazem com que desapareça um pedaço de uma pessoa. Aos poucos se rouba uma alma, até a conduzir à sua morte interior. Pois eles, aproveitam-se dos frágeis e abusam desse ponto fraco. Porquê tanto preconceito? Porquê tanto racismo? Porquê tanto individualismo? Porquê tantas leis impensadas? Porquê ?!
O mundo e as mentalidades devem evoluir, devem libertar-se de mistérios, abrir mãos a todos! Pois somos todos humanos, pois todos temos amor, carinho e conforto para dar. Deixem-se de restrições para integrar-se numa sociedade, deixem-se de criticar o próximo e de lhe apontar os defeitos... deixem-se! Não continuem a "roubar" as pessoas e deixem as pessoas viver a sua vida. Viver a sua vida, à sua maneira, com os seus hábitos, com o companheiro que amar, com o rumo que quiser! Não moldem ninguém ao vosso gosto, não tratem as pessoas, que são iguais a vocês, como um brinquedo, como um escravo vosso! Porém, se os ruídos mortais prevalecerem, mais almas silenciadas haverão! Amem-se e respeitem-se, somos todos humanos!

Entregue

 É mais um dia cinzento e chuvoso! Está tudo encharcado, ouve-se o desespero de quem está a submergir! Não gosto nada de estar assim, odeio me sentir assim! Tenho um vazio enorme dentro de mim, como se me tivessem roubado algo, um pedaço de mim. Continuo a submergir no desespero! Não sei porquê, mas estou a escurecer cada vez mais. A minha alma está a ficar negra, assim como o meu coração! Mas há algo que me impede de me tornar, totalmente, num ser negro... E esse algo és tu! E porquê tu? Porque eu não te quero ver magoado, preocupado, desesperado pela minha cura... nao quero nada disso para ti! Eu quero-te o mais feliz possível, quero-te sadio.
 Tu és o meu mundo, a minha luz na escuridão... és tudo para mim! E só te peço uma coisa, uma coisa muito importante! Quando te sentires fraco, a perder a tua luz, a tua alma ... quando te quiseres magoar, não o faças em ti. Usa o meu corpo como cobaia tua, corta-o se for preciso. Mas não te magoes a ti! Desde que estejas saudável, isso já é a minha felicidade eterna! Por favor cumpre este meu último pedido. Por favor! Faz-me feliz, faz-me eternamente feliz.

Sorrir

Tentei largar-me do vício de escrever, contudo não consegui! Preciso de me expressar, preciso de expulsar a minha dor interior... Seria tudo muito mais fácil se não doesse, se não criticassem, se não abusassem de mim, se não insultassem! Seria muito mais fácil! Porém sorrio todos os dias. Um sorriso mascarado, forçado, magoado e sem alma. Quantas vezes já não sorri, com vontade de chorar? Quantas vezes já sorri, só para não dar parte fraca? Quantas vezes não sorri, para dar a entender que não me magoou? Quantas vezes? ...
 Estou farto daqueles, que se consideram superiores, e tentam rebaixar-me. Farto, desta sociedade empilhada de regras e limites. Empilhada de pessoas de mau carácter e autoritáritas, que pensam que só elas estão corretas! Farto, destes otários, que se julgam! E é por causa deles, que estou a apodrecer. Estou a morrer aos poucos, pedaços de mim arrancados, tortura sem fim, punição só porque eu não fiz o que para eles estava correto! ESTOU FARTO!
 Começo a ficar sem energias para continuar a lutar, para continuar a forçar o sorriso! Não tenho forças para mais... e também não quero que me ajudem! Eu consigo sair disto, se não sair e morrer... pronto morri! Mas não quero ninguém para me "ajudar", ninguém mesmo!
 CONTUDO ESTOU BEM E CONTINUO A SORRIR!

Poção

 Mais um dia. E cada vez mais estou incurável, cada vez mais morto! A minha alma está a despedaçar-se aos poucos. Já nem me reconhecem, já ... nem me reconheço! Sinto-me como se fosse um pobre, não um pobre no sentido de carência económica! Mas um pobre de alma, uma alma penada!
 Dependo muito desta poção. Dependo dela para afogar todas as mágoas, para ocultar a dor, para viver feliz. Ai! Quando me alimento dela... fico alegre, pelos vistos é contagiante, pois vejo os sorrisos que faço esboçar no rosto negro das outras pessoas. Pensando bem, não se devem rir da minha alegria interior. Mas sim da minha alegria envenenada, das minhas figuras tristes, dos meus atos podres...
 Triste que sou, agora tenho um vazio dentro de mim, sinto-me uma marioneta ridicularizada, mas ... a poção tem tanto poder sobre mim! Preciso dela tanto como preciso de dinheiro para a consumir, como preciso do ar que respiro! Ela é a MINHA vida... É ridículo, eu sei! Porém é ela que ainda me mantém aqui na terra, e só ela me irá matar! Pobre feliz! Triste coitado! Esta é a minha vida, vivendo da poção da triste felicidade.

Consciente

Já é tão tarde! O corpo pesa, o cérebro implora descanso  os olhos ardem... as minhas forças desapareceram. Estou completamente exausto! Exausto não só de todo o meu dia, não só do trabalho... exausto também de refletir, de tentar perceber! Tento sair deste poço sem fundo, mas não consigo. Escorrego pelas paredes húmidas e frias, rasgo a minha pele, faço feridas de grande profundidade! O que outrora era límpido, agora é um aconchego para as minhas gotas de sangue, que pelo meu corpo transbordam. Sei que vou morrer aqui! Sei que vou morrer desta dor! Porém, o meu (in)consciente obriga-me a continuar... a matar-me, em vez de ser morto. Não consigo parar! Sinto cada pedaço de pele a rasgar. Sinto cada veia a ser fulminada. Sinto cada gota de sangue a jorrar por cada rasgo. Sinto o calor do sangue jorrado. Faço isto face a face com o espelho. E agora... adoro o meu corpo! Pareço um jornal... tão lindo. Está todo escrito, cheio de palavras perdidas, que vocês tanto gostavam de me chamar e de me dizer. Está simplesmente perfeito o meu corpo! Nunca o amei tanto! Nunca! Mesmo ao estar com dores tremendas e com tonturas, eu sinto-me perfeito! Engraçado, que vou morrer perfeito!
 Mas antes tenho que me ocupar das minhas últimas forças para limpar as poças de sangue, que estão espalhadas pelo chão. Forças para lavar o meu corpo e passar as pontas suaves dos meus dedos sobre cada detalhe de cada ferida. Já volto! (...) Tarefas concluídas! Ai! Sinto a brisa fria, da corrente de ar a resfriar cada ferida. Sinto as enormes tonturas, já desmaiei inclusive! São tantas as dores... Não consigo controlar este sofrimento. Procuro algo que sustente o meu corpo! Algo que suporte este trapo de corpo perfeito! Um cinto ou uma corda seria perfeito. Tenho por coincidência uma corda aqui perto, por isso vou ajustá-la à minha altura e vou afixá-la. Vou pegar num banco e vou apertá-la em torno de meu pescoço. Até me fica bem! E ... aiiiiiiii! (último suspiro) "Guardai a minha alma"
 Assim fui condenado à morte, pelo meu próprio sufoco.


Sorte

 E é mais um dia que estou aprisionado. Já não bastava este facto, como incidiu em mim a nostalgia. Nostalgia das minhas brincadeiras, corridas, birras, choradeiras, etc. Ai, como sinto saudade! Saudade daquelas histórias inocentes, sem princípio, meio e fim ... sem jeito nenhum. Saudade dos tempos em que brincava a saltar à corda, juntos dos meus amigos. Saudade de estar descalço e sentir o chão, ou de estar na praia e sentir a suavidade da areia. Saudade de quando corria e pensava que tinha super velocidade e conseguia rasgar o vento... Uma saudade tremenda, que não passa de memórias que para sempre guardarei. Pois é isso que me mantém vivo. É isso que me faz manter a minha respiração, já compassada. Mas, por vezes, despendo de tanta força vital para reviver estas memórias, que quase não consigo suspender a última lufada de ar inspirada.
 Começo a ficar desgastado desta prisão! Começo a desejar a minha última inspiração! Não desejo mais estas duas rodas que me movem! Odeio esta cadeira! Quero poder voltar a suportar-me nas minhas pernas! ... Raios, lembrei-me novamente daquele dia que me prendeu. Daquele dia que praticamente acabou comigo. Quis tanto esquecer... mas fui escravizado a lembrar-me todos os dias, pois ela está sempre presente. Afinal é ela que me leva! Ai, lembro-me perfeitamente do dia em que fui atropelado violentamente. E preciso imenso de o contar. Minha alma vivia muito feliz, numa alegria contagiante. Por onde passava contaminava os sonhos e as brincadeiras, com uma alegria enorme, a qual provoca um belo e grande esboço de um sorriso nas pessoas que me rodiavam. Sempre que isto acontecia, minha alma ficava cada vez mais cristalina, mais pura, mais transparente... Então ía um dia, minha alma, a passear serenamente entre brincadeiras e gargalhadas. Até quando avista os sonhos, e choca contra eles. Nesse preciso momento, meu corpo, resfriou e sentiu um vazio enorme. Tinha perdido a alegria que contaminava as pessoas. Pois minha alma tinha sido atropelada pelos sonhos... os sonhos destruiram-se e minha alma perdera as pernas que moviam a sua (minha) vida. Pobre alma, pelos sonhos fora roubada! Pobre alma, que perdeste a tua alegria! Pobre alma!
 E é assim que vivo. Vivo do suporte da memória, são elas que ainda me movem e me mantém vivo! Sou uma pessoa que não tem a força para lutar pelos seus sonhos, uma vez que estão igualmente destruídos! Uma pessoa sem projetos de futuro. Sem motivo aparente para respirar e continuar a viver! Contudo estou morto, porém vivo nas memórias.

Dificílimo!

Acordei novamente... Pobre de mim, ter acordado para mais um dia! Preferia um descanso eterno, algo mais duradouro! Ai, como odeio amar-te tanto, vida. Odeio tanto que começo a ficar louco e ferido deste amor, à qual julgo que deve ser eterno. Estou consumido desta droga que já me corroí. A ferida, que cada vez mais rasga, faz com que seja tão difícil acordar, e remontar o passado com o presente! É tão difícil conjugar os dois, mas tão difícil, que às vezes preferia nunca mais abrir os olhos. Não consigo perceber. Juro que tento, mas não consigo! Mudei, mas mesmo assim é difícil perceber. No passado rejeitado, no presente amado. No passado destruído, no presente exaltado. No passado ignorado, no presente admirado. No passado tudo tão diferente, que me impossibilita de acreditar no presente!
Não consigo aceitar os elogios, estou desprovido disso! É tão difícil ver qualidades, num mar de defeitos... e eu começo a afundar-me, e cada vez vejo menos luz! Adeus! Submeti-me ao mar, foi mais forte que eu, não resisti...desculpa, nunca pensei poder ceder tão facilmente. Mas estava tão desprotegido, que qualquer arma, me feria... que qualquer arma, me matava! Meu coração era frágil e negro sentia-se ameaçado. Ele estava completamente rasgado de tanta arma, que cessava fogo contra ele! Mas sempre se reconstituía, mas a cada pedaço remontado... era um pedaço que da minha alma roubado e consumido para construir, meu pobre coração! Porquê tanta bala de insulto? Porquê tanta bala com defeito?
E porque me tentavam curar com elogios? Quem estará correto? Quem cessa fogo contra mim, ou quem me cura? ... Não obtive resposta, por isso deixei-me conquistar pelas ondas... Agora afundado, sinto o toque suave, de quem me quer curar, das algas; sinto a corrente leve criada pelos peixes, que por mim rodopiam, e me fazem sentir protegido; oiço os assobios dos golfinhos, como quem me quer despertar e me aconselhar, aquece-me tanto o coração; oiço também um canto profundo, não sei se serão das sereias ou até mesmo de todos os mamíferos. Mas oiço um canto tão belo, que me embala e traz-me o conforto; Vejo, sinto, oiço ... tão maravilhosa a sensação de conforto, de carinho, ... ! Finalmente sinto a proteção, daqueles que vêm para além dos meus defeitos...
Afinal não me afoguei neste mar, mas sim encontrei o descanso, o amor, o carinho, o afeto de todos aqueles que penso que me amam! Continuo a respirar, continuo vivo ...