Orgulho

 Acordei com o sol a radiar na minha face. Despertei com a luz amarela e brilhante, que aqueceu todo o meu corpo, que o contaminou de alegria pura! Por momentos, o meu cérebro esqueceu tudo e deixou maravilhar-se por aquela luz hipnotizante. E, naquele transe, me apaixonei pelo céu! Mas num ápice, aquele foco brilhante que me iluminava... abandonou-me! Perdi-o, no entreabrir dos olhos. Em segundos, dei por mim caído por terra, em lágrimas, em desespero e na angústia da solidão. Foi naquele abrir e fechar de olhos, como o bater das asas de um anjo, que revivi todas as minhas memórias passadas... desejei e obriguei-me a nunca mais me lembrar delas!
Porquê teve de ser assim tão cruel? Sofrer é diário. Porém em criança, custou-me tanto. Custou ser objeto, custou ter que aprender a controlar os meus sentimentos, custou esconder as mágoas e as minhas carências! Porquê a mim? Sentia-me e sinto-me deslocado, diferente, desigual, desrespeitado, inferior e desnecessário! Os meus colegas andavam sempre aprumados, bem arranjadinhos, alguns pareciam pinturas. Nos intervalos lá iam eles com a sua mala, para satisfazerem-se com o seu lanche. Notava-se a grande satisfação nos rostos deles. E eu?! Eu era a criança com o cabelo despenteado, trajes velhos e rotos, rosto pálido, olhos encovados e escuros, não tinha a minha malinha com o lanche. Cheguei, inclusive, em ir para a escola sem qualquer tipo de alimento no meu estômago, completamente em jejum. Injusto não é? Mas a vida não é feita de justiças e injustiças, a vida é um caminho pela qual nós fazemos opções, após a tomada de uma decisão temos que carregar as consequências! Sofri por consequência dos outros, mas vivi e vivo com isso!
  Mas porque tinha de ser objeto de represálias e de chacota? Já não bastava a repugnância que tinha para comigo? Porém, a verdade é que é muito mais fácil humilharmos quem é diferente, quem tem anomalias, quem não tem posses monetárias, do que criticar alguém do nosso estatuto! Mas isto é passado! Um passado vivido de carências, um passado relembrado por sentenças de causa presente.
 Orgulho?! Tenho muito orgulho... mas um orgulho podre! Além da miséria passada, o presente arrecadou semelhantes profecias, e fez de mim um Homem de rua. Aquele Homem à qual rejeitas ajudar, à qual me fazes ainda mais sórdido. Só porque a minha casa é um jardim obscuro, com uns bancos debilitados! Dava-me à magnificência de ter um pequeno lar acolhedor e quente. Mas a única fonte acolhedora e quente que possuo é aquela luz, que brilha nas raras manhãs de céu harmonioso! Nos restantes dias é andar escoltado pela brisa gélida que a corrente traz!
 O podre orgulho cai por terra e mata o Homem de repugnância!